No último dia 2 de outubro comemorou-se o Dia Internacional da Não Violência, uma homenagem à data de nascimento de Mohandas Gandhi. Simples por opção, Gandhi direcionou-se na vida por princípios morais que orientaram seu modelo igualmente simples de liderança e, com sua peculiar simplicidade e perspicácia, tornou-se um dos maiores líderes, agentes de mudanças de sua época, deixando um legado que inspirou outros líderes como Martin Luther King e Nelson Mandela, além da metodologia de Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg. E, certamente, conhecer a história de Gandhi é fundamental para aqueles que estão em posição de liderança ou almejam ser. O legado de Gandhi como líder e pacifista, nos inspira a refletir sobre o mais profundo potencial humano para resolver problemas complexos, sendo possível vislumbrar a integração de sucesso nos negócios com integridade pessoal e ética, decisões econômicas e políticas com princípios e valores morais, numa ciência que sirva realmente às necessidades e aos interesses humanos, em relações de trabalho pautadas por cuidado, amor e respeito. Estas seriam características de um padrão de liderança mais elevado, tão necessário para a construção de negócios mais sustentáveis. Sobre Gandhi, Albert Einstein disse que as próximas gerações dificilmente acreditarão que alguém como ele de fato andou, em carne e osso, por este planeta. Neste artigo, humildemente, gostaria de explorar alguns princípios gandhianos e contextualizá-los à liderança organizacional atual.

Liderar por princípios: a base do modelo de liderança gandhiano está nos princípios éticos que adotou firmemente em sua vida. O primeiro princípio é a não violência, que sugere guiar-se cuidadosamente, de modo a evitar que qualquer conduta ou comportamento venha a gerar dor, shumilhação ou sofrimento, físico ou psicológico, a alguém. É o fundamento de toda a moralidade baseada na espiritualidade, presente nas principais tradições de conhecimento que sugere faça ao próximo o que gostaria que lhe fizessem. No contexto atual, sugere que a conduta do líder deve ser atenta e reflexiva visando evitar que qualquer atitude ou conduta gere prejuízo às pessoas. É obvio que é praticamente impossível não causar sofrimentos, principalmente quando se está numa posição que exige tomada de decisões. Mas se o líder adere a esse princípio e assume um compromisso legítimo com uma conduta não violenta, encontrará formas de eliminar ou minimizar prejuízos aos outros, por meio de uma conduta e comunicação cuidadosa com as pessoas, decidindo com base na reflexão e na justiça e diminuindo comportamentos de agressividade e indelicadeza. Comunicação franca e cooperativa, diálogos abertos, olho no olho e a assertividade ajudam a superar o autoritarismo e o assédio moral, fortalecendo as relações entre líderes e liderados.

O segundo princípio é a verdade. Naturalmente que, esse princípio não se limita à abstenção da mentira, mas expande-se à busca de coerência entre pensamentos, palavras e atos. O líder que se orienta por esse princípio é autêntico, franco, transparente, não ilude os outros criando falsas expectativas com aquilo que não poderá cumprir e tem um padrão único de conduta em sua vida pública e privada. Gandhi seguia e aprovava um padrão único de conduta, e a relevância desse princípio se dá ao fato de que as pessoas normalmente perdem o respeito por líderes incoerentes, que possuem conduta distinta entre sua vida pública e privada. Isso não sugere uma conduta perfeita dos líderes, mas a história confirma que muitos líderes políticos e empresariais do passado, pegos em mentiras e escândalos, tiveram sua reputação destruída, sendo forçados a se retratar e até a renunciar seus cargos. Líderes que não despertam respeito reduzem a legitimidade de sua liderança e comprometem sua credibilidade.

Liderar por serviço: Gandhi é, sem dúvidas, um símbolo de liderança servidora. Mesmo sem ocupar qualquer posição oficial no governo, conseguia mobilizar milhões de pessoas. O modelo mental de muitos líderes ainda associa liderança à conquista de poder e status, e enquanto poder e status dominarem o modelo mental sobre liderança, dificilmente se conseguirá progredir para um padrão de liderança mais elevado. O serviço deve estar no centro da liderança e, embora o poder sempre esteja associado à liderança, ele tem apenas um uso legítimo: o serviço. Líderes motivados exclusivamente por interesses egoístas também perdem legitimidade. Um espírito de serviço é pautado por um forte senso de dever e responsabilidade com os outros, com a organização e consigo mesmo, e Gandhi acreditava que os deveres sempre vinham antes dos direitos. Compreender as necessidades das pessoas (inclusive as ocultas) é a base para uma liderança servidora para isso, o líder deve envolver-se pessoalmente com elas, dedicar tempo para ouvi-las, sentir as pessoas, observá-las e compartilhar experiências. E se o compromisso pessoal em servir as pessoas não for visível, elas dificilmente compartilharão informações sobre suas necessidades mais profundas. O líder que não serve não serve para ser líder.

Liderar a si mesmo: Gandhi foi um homem que reconheceu suas fraquezas. Em sua autobiografia afirmou ter sido tímido, impulsivo e luxurioso na juventude, sentindo-se, muitas vezes, envergonhado por pensamentos e sentimentos que tinha em momentos inoportunos. A autoconsciência sobre suas vulnerabilidades criou em Gandhi uma firme disposição para se refinar como pessoa, melhorando seu autocontrole e seu comportamento geral, dia após dia. Penso que reconhecer sua humanidade básica é uma virtude para o líder, pois todos nós somos ou nos tornamos inábeis diante de certos aspectos práticos da vida. Estou convencido das minhas próprias limitações – e esta convicção é minha força, afirmou Gandhi. Treinar a própria consciência é um caminho consistente para saber investigar e melhorar a si mesmo com certa autonomia. Uma mente habilidosa, capaz de um autodiálogo positivo, possibilita melhor qualidade reflexiva e melhores decisões. A maioria das pessoas reflete sobre as próprias ações após reconhecer que cometeu um erro ou uma injustiça. Quando o fazem, certamente é um bom primeiro passo, mas ainda é uma ação reativa. Cultivar uma concentração interna (ou meditação) ajuda a criar um espaço de atenção que quebra o automatismo, gerando capacidade reflexiva para escolher a melhor ação para determinado contexto. Isso é maestria pessoal. Reconhecer e ter consciência das próprias fraquezas realmente se revela como força de caráter, na medida em que gera compromisso para o aprendizado de novas competências para minimizar comportamentos improdutivos. Em outra de suas frases, Gandhi afirmou que aquele que não é capaz de governar a si mesmo não será capaz de governar os outros.

Liderar pelo exemplo: há uma famosa história de uma mãe aflita que trouxera seu filho até Gandhi dizendo: Por favor, Mahatma, peça ao meu filho que pare de comer açúcar. Eu já expliquei a ele todo o mal que lhe faz, mas ele não me escuta. Mas tenho certeza de que um pedido seu ele atenderá. Gandhi olhou para a mulher e pediu que ela voltasse com seu filho após 15 dias. Ela esperou esse período e voltou. Então, Gandhi olhou bem nos olhos do menino e disse: Pare de comer açúcar, porque só lhe faz mal. A mãe, então, perguntou: mas, Mahatma, por que não fez isso da primeira vez que vim até aqui?. E então Gandhi respondeu: porque há quinze dias eu também comia açúcar. Cada um de nós, consciente ou não, está dando um exemplo para alguém, e cada um de nós é responsável por moldar o futuro como gostaríamos que fosse. Se quisermos fazer uma diferença positiva para as pessoas e para o mundo é necessário adotar uma conduta coerente e não simplesmente cobrar dos outros uma conduta que teríamos dificuldades de praticar. Liderar pelo exemplo não é apenas a melhor forma de liderança, mas também a mais duradoura.

Liderar por propósito: Gandhi certamente teve um propósito, um ideal. Libertar seu país da dominação britânica, inspirar um senso de liberdade, justiça e autoestima no povo, lutar pela desigualdade social são exemplos de propósitos e ideais. Propósito pode ser entendido como um objetivo repleto de significado, que beneficia não só o agente, mas toda sua comunidade. Um líder naturalmente se orienta por uma visão, uma missão e valores (prefiro chamar de propósito) que são compartilhados e criam o elo entre as pessoas. A crença e amor do líder por um propósito, preferencialmente não egoísta, é que vai inspirar os outros a segui-lo. Gandhi amou a justiça e a liberdade e adotou princípios éticos para chegar até ela.

E que seu legado continue a nos inspirar.

Artigo extraído do site www.abtd.com.br / Por: Carlos Legal

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